A 2 de novembro, o oblast de Murmansk publicou o decreto n.º 683-PP de 29 de outubro, que aprova as direções principais da sua política de dívida pública para 2027 e o período de planeamento de 2028 e 2029. Está assinado pelo governador A. Tchibis, entra em vigor a 1 de janeiro de 2027 e revoga o decreto equivalente emitido um ano antes, dia por dia. Oito páginas, digitalizadas sem camada de texto; lemo-las como imagens nesta sessão.

Documentos deste género costumam descrever a dívida sem a explicar. Este explica-a, numa única frase da sua segunda secção:

«O crescimento continuado das despesas de sustento vital (antes de mais na remuneração dos trabalhadores devido ao aumento do salário mínimo, na compra de medicamentos, no auxílio material aos militares envolvidos na operação militar especial e aos membros das suas famílias), a manutenção da elevada quota da região na concessão do apoio federal, bem como a necessidade de assegurar o serviço da elevada dívida comercial, cujo surgimento se tornou consequência direta da queda das receitas fiscais do oblast de Murmansk, não permitem inverter a tendência de crescimento da dívida pública.»

Uma região que, num ato normativo assinado, aponta o seu próprio endividamento comercial como consequência de impostos perdidos — e que coloca os pagamentos aos militares entre as razões por que não consegue deixar de se endividar.

O imposto que desapareceu

O decreto quantifica a queda. Em 2025 o oblast arrecadou 98,6 mil milhões de rublos de receitas fiscais e não fiscais: menos 3,4% do que as dotações que ele próprio aprovara e 10,5% abaixo do executado de 2023. A causa que indica é «uma queda abrupta das entradas do imposto sobre os lucros das organizações provenientes dos contribuintes-chave da região»:

imposto sobre lucrosvariação tal como o decreto a dá
2023 → 2024−22,5 mil milhões, −40%: de 56,6 para 34,1 mil milhões
2024 → 2025−3,8 mil milhões, −11,2%

Dois quintos do imposto desapareceram num ano, e um nono do que restava no ano seguinte. O decreto não nomeia os contribuintes; numa região cuja base industrial é a extração, os metais e os fertilizantes, o preço de exportação é a explicação habitual, mas o texto não oferece nenhuma.

A subir e ainda muito abaixo: a distinção é feita pelo próprio oblast

Para 2026 o documento regista «uma dinâmica positiva das entradas do imposto sobre os lucros das organizações (estimada em 19,0% acima do plano)». A frase seguinte é a que importa:

«Todavia o crescimento das entradas do imposto sobre os lucros em 2026 não atinge o nível das entradas de 2023 (em 28,7%).»

É a separação entre ritmo e nível, feita pelo governo que cobra o dinheiro. O sentido da marcha é ascendente e a comparação com o ano passado é lisonjeira; medido contra o ano anterior ao colapso, falta ainda ao imposto mais de um quarto. É exatamente a distinção que este sítio existe para sustentar, e é invulgar encontrá-la traçada na fonte em vez de contra ela.

Sem perequação, porque a região ainda parece rica

Murmansk não recebe nem dotações de perequação nem transferências de apoio ao equilíbrio orçamental. O decreto dá a razão — o índice calculado de capacidade orçamental, que situa uma região face à média nacional:

anocapacidade orçamental calculada
20241,535
20251,248
20261,114

A margem acima da média percorreu em dois anos quatro quintos do caminho até ela, e o decreto continua a descrever esse nível como «elevado». Enquanto não descer abaixo de 1,0, a maquinaria federal de perequação não arranca, pelo que o instrumento ao dispor de uma região nesta posição não é uma dotação mas um empréstimo. É esse o fundo estrutural da frase citada: a dívida é o que o oblast tem em vez de apoio.

Quanto custa a dívida e de que é feita

A dívida pública cresceu 24,0 mil milhões de rublos em 2025 e situava-se em 76,5 mil milhões a 1 de janeiro de 2026 — 70% das receitas anuais sem as entradas a título gratuito, dentro do limite do artigo 107.º do Código Orçamental. O seu serviço custou 7,4 mil milhões de rublos em 2025, o que o decreto atribui ao recurso a crédito bancário em volumes superiores aos do ano anterior «e também ao aumento do custo dos créditos comerciais contraídos a taxas mais elevadas».

A 1 de setembro de 2026 a dívida era de 78,1 mil milhões de rublos:

componentemontantequota
créditos orçamentais do orçamento federal28,7 mil milhões36,8%
créditos comerciais de instituições de crédito45,0 mil milhões57,6%
garantias pela Murmanenergosbyt4,4 mil milhões5,6%
total78,1 mil milhões100%

As garantias cobrem o endividamento da empresa de aquecimento para pagar aos fornecedores de recursos, o combustível entre eles. Dentro dos 28,7 mil milhões de crédito federal, o decreto discrimina 10,5 mil milhões para financiamento do défice e estradas, 3,1 mil milhões de créditos orçamentais de infraestruturas, 2,5 mil milhões de créditos especiais do Tesouro, 3,2 mil milhões de créditos de infraestruturas do Tesouro e 9,4 mil milhões de crédito para repor o saldo da conta orçamental única. As cinco linhas somam exatamente 28,7.

A dívida comercial baixou, e é isso que há que ler duas vezes

Face ao início de 2026 o total subiu apenas 1,6 mil milhões, ou 2,0%. Por baixo, a composição mexeu-se com força:

componentevariação em 2026 até 1 de setembro
créditos orçamentais+10,1 mil milhões, +54,3%
garantias+2,8 mil milhões, ×2,8
créditos comerciais−11,3 mil milhões, −20,1%
líquido+1,6 mil milhões

Ambos os valores são do próprio decreto e, como as suas componentes estão arredondadas a uma decimal, a divisão não é exata: 1,6 sobre 76,5 dá 2,1%.

Um quinto da dívida comercial desapareceu. O decreto diz sem rodeios o que a pagou: os créditos orçamentais subiram «em ligação com a receção, no início de 2026, de um crédito orçamental para repor o saldo de fundos na conta orçamental única» — os 9,4 mil milhões acima. Murmansk foi, acrescenta, «uma das primeiras entre os sujeitos da Federação da Rússia» numa experiência do Ministério das Finanças e do Tesouro Federal de conceder esse crédito «segundo a necessidade», e a participação «permitiu prolongar a utilização do crédito orçamental até dezembro de 2026».

Ou seja, a melhoria na metade de mercado do balanço é financiada por um mecanismo federal de liquidez cuja prorrogação termina no mês que vem. Um crédito para repor uma conta de caixa não substitui receitas nem se destina a isso: existe para levar um orçamento por cima do desfasamento entre despesas e cobranças dentro de um ano. É nele que assenta a redução de 20,1% da dívida comercial, e o decreto não fixa plano algum para o que ocupará o seu lugar em janeiro.

Perdões: um rublo perdoado, oito adiados

Ao abrigo das regras federais de perdão do decreto n.º 79 de 1 de fevereiro de 2025 e de um acordo alterado cinco vezes desde abril de 2025, o oblast regista para 2026: 364,5 milhões de rublos perdoados e 686,7 milhões cujo reembolso passa de 2026 para 2030.

Os anos de planeamento repetem a segunda metade deste padrão sem a primeira. Reembolsos de 686,7 milhões em 2027, 686,7 milhões em 2028 e 899,6 milhões em 2029 «serão transferidos» para 2031, 2032 e 2033. Somando o adiamento de 2026, são 2,96 mil milhões de rublos de reembolso empurrados para a década de 2030 contra 364,5 milhões realmente cancelados — uma proporção de cerca de oito para um. O alívio da dívida, tal como chega a este oblast, é sobretudo uma mudança de data.

O que isto significa para as séries que seguimos

Medimos o défice dos orçamentos regionais (consolidado) como um total móvel de doze meses de todas as regiões da Rússia juntas. Está num défice de 1,466 biliões de rublos, com uma pontuação de 33 em 100 face a uma âncora do pré-guerra — um excedente de 0,661 biliões no final de 2021 — e a uma linha de alerta registada em 2,5 biliões de défice. O nosso guia sobre os orçamentos regionais explica como a série é construída. Este decreto não move nada disso: nenhuma leitura mudou na passagem desta manhã, e o índice de solidez está em 46 em 100, na zona de stress.

O que acrescenta é o enunciado causal que os restantes documentos regionais deste outono deixam de fora. Khanty-Mansi pediu emprestados 88,9 mil milhões no mercado obrigacionista e à banca; Rostov subiu o défice pela terceira vez, cobrindo 95,7% dele com obrigações e crédito bancário; Irkutsk subiu o seu em 50% com crédito bancário limitado a prazos de dois anos. Cada um mostra o endividamento. Murmansk deixa escrito por que começou.

É também a imagem invertida de Ivanovo, que publicou a sua própria política de dívida para 2027–2029 três dias antes. Toda a dívida de Ivanovo são créditos federais; não prevê endividamento de mercado algum e encolhe a dívida por perdão. Murmansk deve à banca 57,6% da sua, paga 7,4 mil milhões por ano para o fazer e está demasiado abastado para aceder às dotações que reduziriam a necessidade. Os dois decretos são o mesmo instrumento a descrever posições opostas: uma região não consegue chegar ao mercado, a outra não consegue sair dele.

Contra isso, os instrumentos federais construídos neste outono fazem pouco. O centro adiou 300 mil milhões de rublos de reembolsos de créditos orçamentais, substituiu as garantias sobre as dotações de perequação por um limiar mínimo de 90% — que Murmansk não recebe — e pôs fim à contagem de juros sobre dívidas orçamentais em tribunal. Nada disso toca nos 45 mil milhões de rublos devidos à banca.

O que não sabemos

Quanto é realmente o imposto sobre lucros de 2026. O decreto dá 19,0% acima do plano e 28,7% abaixo de 2023, mas nenhum valor em rublos nem o próprio plano, pelo que as duas percentagens não podem ser reduzidas a um nível só com este documento. Não inferimos nenhum.

Quanto custa a dívida comercial. Nenhuma taxa consta do ato. A secção 6 nomeia o risco de taxa como «o elevado custo dos empréstimos de mercado e, em consequência, o risco de incumprimento das condições dos acordos quanto à dimensão da taxa pela utilização dos créditos comerciais contraídos» — o que diz que existe um teto de taxa no acordo do oblast com o Ministério das Finanças federal, sem revelar nem esse teto nem a taxa efetivamente paga.

O que está planeado para 2027–2029 em rublos. O decreto expõe objetivos, princípios, instrumentos e riscos, e nenhum montante: sem programa de endividamento, sem teto de dívida, sem previsão de serviço. Esses números pertencem ao projeto de lei do orçamento, que a mesma série de decretos aprovou a 29 de outubro (n.º 687-PP), mas cujo texto o portal não publicou.

Quanto dos 78,1 mil milhões vence em 2027. Não consta do documento qualquer perfil de maturidades, pelo que a necessidade de refinanciamento do primeiro ano que esta política cobre não se lê nele.

Que contribuintes. A expressão «contribuintes-chave da região» não é desenvolvida, e não é nomeado setor, empresa ou preço algum como causa da queda dos seus lucros.