A 7 de outubro, Mishustin assinou pelo menos quatro despachos que tocam numa única e mesma conta: o fundo de reserva do Governo russo. Três deles atribuem dinheiro para fora: o despacho n.º 2804-r eleva em 4,68 mil milhões de rublos o teto de um subsídio aos aeroportos fechados pelas restrições de voo, o despacho n.º 2803-r aumenta em 2 mil milhões a dotação de equilíbrio do orçamento da Crimeia, e o despacho n.º 2802-r atribui à Crimeia mais 1,6 mil milhões para o seu setor agrícola. O quarto, o despacho n.º 2811-r, faz entrar dinheiro: 72,245 milhões de rublos de lucro acima da previsão de uma empresa estatal. Lemos os quatro nesta sessão, juntamente com os dois despachos de base que o primeiro par altera. Em conjunto, os três despachos do dia somam 8,28 mil milhões de rublos ao que o fundo fica comprometido a pagar — dotações e um teto, ainda não dinheiro: um despacho abre o caminho para o dinheiro, e o dinheiro move-se quando os acordos e subsídios dele decorrentes são executados.

Aeroportos: seis meses tornaram-se doze

O despacho n.º 2804-r cabe numa frase. Traduzida:

«No ponto 1 do despacho do Governo da Federação da Rússia de 6 de maio de 2026 n.º 1058-r… as palavras “julho – dezembro de 2025, dotações orçamentais num montante de até 5.977.253,6 milhares de rublos” são substituídas pelas palavras “julho de 2025 – junho de 2026, dotações orçamentais num montante de até 10.656.786,8 milhares de rublos”.»

O despacho de base de maio dava à agência de aviação Rosaviatsia dinheiro do fundo de reserva para subsídios aos aeroportos russos — «reembolso parcial das despesas por tipos ordinários de atividade e dos juros de contratos de crédito ou contratos de empréstimo no período de introdução do regime de restrição temporária dos voos para os aeroportos do sul e da parte central da Rússia». A alteração estica o período coberto de seis para doze meses, de julho de 2025 a junho de 2026, e eleva o teto de 5,98 mil milhões para 10,66 mil milhões de rublos — mais 4,68 mil milhões, recalculado a partir dos números do próprio despacho: 10.656.786,8 menos 5.977.253,6 dá 4.679.533,2 milhares.

O resto do despacho de maio fica como está, incluindo a sua única condição: o beneficiário não pode ter cortado o pessoal em mais de 10 por cento — face a 1 de janeiro de 2022, ou face à data em que foi certificado como operador do aeródromo, se o assumiu depois. A Rosaviatsia presta contas ao Governo até 1 de fevereiro de 2027.

A aritmética carrega a mensagem. Aeroportos que não voam não ganham nada e continuam a dever juros; a diferença paga-a o Estado — e agora escreveu numa linha que conta tê-la pago um ano inteiro: uma prorrogação para trás e para a frente ao mesmo tempo, cobrindo o primeiro semestre de 2026 já decorrido. Um regime que o Governo subsidia doze meses é tratado como um estado, não como um episódio.

A Crimeia, duas vezes num dia

O despacho n.º 2803-r também é uma frase: no ponto 1 do despacho de 9 de setembro de 2026 n.º 2444-r, «os algarismos “3.000.000” são substituídos pelos algarismos “5.000.000”». O documento de base de setembro dava ao Ministério das Finanças dinheiro para uma dotação à Crimeia «para o apoio de medidas de garantia do equilíbrio dos orçamentos dos sujeitos da Federação da Rússia» — o instrumento que a Rússia usa quando uma região não consegue fechar o próprio orçamento. A condição continua a de setembro: o conselho de ministros da Crimeia tem de comprometer o dinheiro com «despesas socialmente significativas do orçamento consolidado da República da Crimeia» em 2026. O ministério presta contas até 1 de abril de 2027.

O que mudou foi o tamanho, e a velocidade conta a sua própria história: a soma foi fixada em 3 mil milhões a 9 de setembro e elevada para 5 mil milhões a 7 de outubro — mais dois terços, 28 dias depois. Um buraco que precisa de um reforço de dois terços no mês seguinte à medição era maior do que a medição.

O despacho n.º 2802-r do mesmo dia atribui à Crimeia mais 1,6 mil milhões de rublos — através do Ministério da Agricultura, na mesma forma jurídica de dotação de equilíbrio, mas com destino nomeado: apoio ao complexo agroindustrial, incluindo o reembolso parcial dos custos de produção de carne de aves e ovos e o apoio à fruticultura em 2026. O ministério tem 30 dias de calendário para assinar o acordo e presta contas até 1 de junho de 2027; o Tesouro federal verifica que o dinheiro foi para onde o despacho diz. A página de notícias do Governo sobre o despacho acrescenta um facto que o próprio despacho não contém: Mishustin, ao anunciar a decisão numa feira agrícola, «assinalou que na Crimeia foi introduzido um regime de situação de emergência e que o complexo agroindustrial ali precisa de ajuda». O texto do despacho não menciona o regime; à data desta sessão, o documento não apareceu no portal oficial de publicação, e o texto que lemos é o PDF no servidor de ficheiros do Governo.

A ajuda setorial vestida de dotação de equilíbrio merece registo: a federação não subsidia as explorações — enche o cofre da região e deixa a região pagar-lhes. O mesmo canal, usado duas vezes num dia: uma para o buraco geral, outra para uma indústria com nome — 3,6 mil milhões de rublos a uma região num dia.

O outro lado do livro de contas

O despacho n.º 2811-r trabalha ao contrário. Encarrega o Ministério das Finanças de aumentar o fundo de reserva em 72.245 milhares de rublos — 72,245 milhões — porque a empresa estatal federal «Guarda Departamental do Transporte Ferroviário da Federação da Rússia» obteve no último exercício mais lucro do que a previsão de receitas contemplava. O lucro acima da previsão de uma empresa do Estado não vai para o bolo comum: vai para o fundo que paga aquilo que nenhuma linha orçamental planeou. Contra os 8,28 mil milhões atribuídos para fora no dia, entraram 72,245 milhões — uma proporção que os dois lados do livro fixaram sozinhos.

O próprio fundo de reserva é uma dotação aprovada: o seu tamanho está na lei do orçamento. O que se decide ao longo do ano, por despachos como estes e fora da distribuição aprovada da despesa, é aquilo que ele paga. É esse o seu propósito — e é por isso que observá-lo mostra decisões que o plano de despesa nunca nomeou. Em setembro foi a Chechénia, três despachos em três dias; nestes quatro despachos são aeroportos sob proibições de voo, o orçamento por fechar de uma região e aviários sob um regime de emergência.

O que os despachos não dizem

Quanto dos primeiros 5,98 mil milhões foi realmente pago. O relatório da Rosaviatsia vence a 1 de fevereiro de 2027, e os dados de execução do Tesouro são inacessíveis a partir deste ambiente.

Quem recebe o dinheiro dos aeroportos. Nem o despacho de maio nem a alteração listam os aeroportos beneficiários ou repartem a soma entre eles.

O que se desconjuntou no orçamento da Crimeia. Nenhum dos dois despachos crimeanos nomeia uma causa, e a condição das «despesas socialmente significativas» vem sem lista. Se 5 mil milhões é o número final do ano, o texto não pode dizê-lo — esta linha já foi elevada uma vez, um mês depois de fixada.

A própria emergência. Quando o regime de situação de emergência na Crimeia foi introduzido, com que fundamento e sobre que território, não está em nenhum dos documentos; o site do Governo dá-lhe uma frase, sem data.

O que isto significa para as séries que seguimos

O défice orçamental da Rússia corre a 3,3% do PIB nos doze meses móveis até agosto — 7.501 mil milhões de rublos — e pontua 65 em 100 face ao excedente de 2021, de 0,34% do PIB, e a uma linha de alerta registada nos 10%. Os despachos de hoje não movem nenhuma leitura: 8,28 mil milhões são cerca de um milésimo do défice móvel. O que documentam é o mecanismo na margem — dotações decididas a meio do ano, do fundo construído para o não planeado, sem receita correspondente ao lado.

O dinheiro crimeano vai aflorar também no défice dos orçamentos regionais, que está em 1,509 biliões de rublos no ano móvel — 31 em 100 face ao excedente de 2021, de 0,661 biliões, e a uma linha de alerta registada num défice de 2,5 biliões. Uma dotação reduz esse défice sem que a região ganhe um rublo: como explica o nosso guia dos orçamentos regionais, quanto mais o centro atesta por cima, menos o número consolidado diz do estado próprio das regiões.

O índice de solidez está em 46,2 em 100, na zona de stress. A execução desta manhã moveu uma leitura: a massa monetária M2 cresce 13,2% em termos homólogos a 1 de outubro, contra 12,9% um mês antes.