A 22 de outubro o presidente assinou nove decretos, do n.º 761 ao n.º 769. Um atribui condecorações do Estado; os outros oito reorganizam o Governo, e lemos os oito nesta sessão como digitalizações oficiais do portal jurídico. O mais curto é o que faz mais trabalho. O decreto n.º 762 altera um único ponto do decreto que define a estrutura do poder executivo russo — e esse ponto diz agora que o chefe do Governo tem onze adjuntos em vez de dez, e que um deles é o ministro das Finanças.

Um ponto, um número

O decreto n.º 762 altera o decreto n.º 326, de 11 de maio de 2024, reescrevendo integralmente o seu ponto 1. O texto de maio de 2024 dizia:

«Fica estabelecido que o Presidente do Governo da Federação da Rússia tem 10 adjuntos, entre eles um Primeiro Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia, o Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia — representante plenipotenciário do Presidente da Federação da Rússia no Distrito Federal do Extremo Oriente e o Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia — Chefe do Aparelho do Governo da Federação da Rússia.»

O texto novo é a mesma frase com duas alterações:

«Fica estabelecido que o Presidente do Governo da Federação da Rússia tem 11 adjuntos, entre eles um Primeiro Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia, o Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia — representante plenipotenciário do Presidente da Federação da Rússia no Distrito Federal do Extremo Oriente, o Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia — Chefe do Aparelho do Governo da Federação da Rússia e o Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia — Ministro das Finanças da Federação da Rússia.»

Um número passa de 10 para 11, e aos três cargos que a estrutura do poder executivo nomeia um a um desde 2024 junta-se um quarto. Nada mais se move no decreto. O ponto 2 manda o Governo apresentar propostas de alteração dos atos presidenciais e adequar os seus próprios atos; o ponto 3 põe-no em vigor no dia da assinatura. No mesmo dia, o decreto n.º 768 nomeou Anton Siluanov para o novo cargo ao abrigo da alínea «d» do artigo 83.º da Constituição, «exonerando-o do cargo que ocupa».

O cargo foi aprovado antes de existir

A nomeação exigia uma votação prévia, e a votação consta do registo público — do registo jurídico, não do sítio do próprio parlamento, que daqui não respondeu. A resolução n.º 102-9 GD da Duma Estatal tem a data de 21 de outubro:

«Apreciada a candidatura, apresentada pelo Presidente do Governo da Federação da Rússia, a Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia — Ministro das Finanças da Federação da Rússia, nos termos dos artigos 103.º (alínea “a¹” da parte 1) e 112.º da Constituição da Federação da Rússia, a Duma Estatal da Assembleia Federal da Federação da Rússia delibera: 1. Aprovar Siluanov Anton Guermanovitch como Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia — Ministro das Finanças da Federação da Rússia.»

O decreto que inscreveu esse título na estrutura do poder executivo tem a data de 22 de outubro. No dia em que a câmara aprovou um titular com nome próprio, o cargo não constava de nenhum decreto sobre a estrutura do poder executivo.

Mais do que uma irregularidade, é uma ordem de operações. O artigo 112.º faz do chefe do Governo o autor das duas metades: propõe ao presidente a estrutura do executivo federal e apresenta os candidatos à Duma. As duas metades estavam manifestamente decididas antes de qualquer uma ser publicada. O que as datas registam é apenas qual delas foi mostrada primeiro ao público: o homem e depois a cadeira.

A mesma sessão produziu outras quatro aprovações, e cada uma tem o seu decreto no dia seguinte:

21 de outubro — Duma Estatal22 de outubro — decreto
N.º 99-9 GD — Kozhemiako, vice-presidente do Governo e representante plenipotenciário no Extremo OrienteN.º 765
N.º 100-9 GD — Nikitin, vice-presidente do GovernoN.º 766
N.º 101-9 GD — Okladnikova, vice-presidente do Governo e chefe do Aparelho do GovernoN.º 767
N.º 102-9 GD — Siluanov, vice-presidente do Governo e ministro das FinançasN.º 768
N.º 103-9 GD — Iadrov, ministro dos TransportesN.º 769

Um movimento do pacote não precisou de votação: o decreto n.º 764 fez de Iuri Trutnev assessor do presidente, um cargo do Kremlin sobre o qual a Duma não se pronuncia.

A comporta, além do lugar

A segunda alteração com feitio financeiro está nos dois decretos sobre o aparelho do próprio Governo. O decreto n.º 763 exonera Dmitri Grigorenko do cargo de vice-presidente do Governo e chefe do Aparelho; o decreto n.º 767 nomeia para ele Irina Okladnikova. O Aparelho não é um órgão político mas uma comporta: são os serviços que preparam os atos do Governo, decisões sobre dinheiro incluídas, e os encaminham para assinatura.

Os decretos não dizem de onde vem Okladnikova, e a única pista que contêm é a redação. Três dos cinco decretos de nomeação — o n.º 765, o n.º 766 e o n.º 768 — terminam com «exonerando-o do cargo que ocupa», tal como o n.º 764. Dois não: o n.º 767, o dela, e o n.º 769, o do novo ministro dos Transportes. Os textos não dizem o que decide que um decreto leve a fórmula. A Interfax noticiou a 19 de outubro que era primeira vice-ministra das Finanças desde junho de 2024; não conseguimos confirmá-lo com um documento primário, e uma busca no registo jurídico não devolve qualquer ato de nomeação publicado em nome dela. Tome-se esse passado ministerial como relato alheio, não como algo que tenhamos verificado.

Verificada está a forma: de onze vice-presidentes do Governo, um é ministro das Finanças pelo próprio título do cargo, e quem manda na comporta é, segundo a única versão disponível, também alguém das Finanças.

Porque isto é sobre a capacidade de pagar a guerra

Um ministro das Finanças é um executor. Recebe os pedidos de despesa dos ministérios setoriais e discute com eles de igual para igual, e quando perde a discussão perde-a ao seu nível. Um vice-primeiro-ministro é um árbitro: os mesmos pedidos chegam-lhe de baixo, e a sua recusa custa menos a sustentar. Nada nos dois decretos move um rublo, e convém dizer com clareza que neste sistema a hierarquia não equivale ao poder; mas quando o buraco orçamental é a restrição que aperta, a pergunta viva deixa de ser quanto dinheiro há e passa a ser quem tem direito a dizer que não.

Essa restrição é a crónica recente deste sítio. A lei de encerramento do ano passado fixou o défice federal de 2025 em 5,63 biliões de rublos, 62% acima de 2024. O próprio Ministério das Finanças admitiu um défice estrutural de 1,8% para 2026, e a proposta para 2027 ultrapassa a regra orçamental que devia cumprir. O Estado endivida-se às taxas mais altas de 2026, e nas regiões o dinheiro já está a ser retirado das rubricas que pagam a pessoas: Kirov apagou na semana passada a sua reserva de indexação de salários. Perante essa sequência, esta semana o que muda não é um número mas a mesa onde os números se decidem — a mesma mesa à qual o fundo de Sacalina-1 também presta contas agora ao ministério.

O que isto muda no nosso modelo

Hoje nada, e é de propósito. O défice orçamental da Rússia está em 66 em 100, com uma leitura móvel de doze meses de 7 342 mil milhões de rublos, ou 3,2% do PIB, medida contra a âncora de antes da guerra — o excedente de 2021, 0,34% do PIB — e uma linha de alerta registada num défice de 10% do PIB. O índice de solidez está em 46 em 100, na zona de stress, e na atualização de dados de hoje não se moveu nenhuma leitura; as oito estão no Monitor, e Défice orçamental da Rússia: como ler os números está explicado no guia.

O nosso modelo mede resultados, não organigramas. Um decreto que não move nenhuma rubrica orçamental não pode mover uma série, e este não a moverá. O que uma mudança de árbitro pode fazer é alterar a distribuição das recusas futuras — a que ministério se diz que não, e com que antecedência — e isso chega, se chegar, meses depois e dentro desses mesmos oito números.

O que não sabemos

Porquê onze. Nenhum decreto do pacote dá uma razão para o número, para a posição na hierarquia ou para qualquer um dos cinco movimentos. Os decretos russos de nomeação não levam nota explicativa.

O que o novo cargo pode realmente fazer. O ponto 2 do decreto n.º 762 limita-se a mandar o Governo propor as alterações consequentes. Não foi publicado nenhum estatuto novo do cargo nem do Aparelho. Até que haja um, a elevação é um título.

Que cargo Siluanov deixou. O decreto n.º 768 diz apenas «o cargo que ocupa». A Duma aprovou-o como ministro das Finanças a 14 de maio de 2024 (resolução n.º 6081-8 GD), e o novo título contém esse ministério, pelo que a leitura simples é que manteve a pasta e subiu na hierarquia. O decreto não o explicita.

Para onde vai Grigorenko. O decreto n.º 763 exonera-o, e nenhum dos nove decretos lhe dá outro posto.

Como votou a câmara. As resoluções registam decisões, não contagens. O sítio da Duma não respondeu daqui, pelo que não temos ata taquigráfica nem apuramento de votos.

Se o ponto 1 se tinha movido antes de hoje. O preâmbulo do decreto n.º 762 cita duas entradas da coletânea de legislação para o decreto n.º 326 (2024, n.º 20, art. 2590; n.º 26, art. 3639), pelo que o decreto de 2024 foi mexido pelo menos uma vez entre maio de 2024 e agora. Uma pesquisa por título no registo jurídico não devolve qualquer ato modificativo que nomeie o decreto n.º 326 além do de hoje, e a entrada em si não a lemos. Por isso afirmamos apenas o que dizem os dois textos à nossa frente: a redação de maio de 2024 lê-se 10 e não contém nenhum lugar das Finanças; a de hoje lê-se 11 e contém-no. Não sustentamos que pelo meio nada tenha acontecido.