A 7 de outubro o governo publicou o despacho n.º 2786-r de 6 de outubro — duas páginas assinadas por Mishustin, que lemos na íntegra nesta sessão. Perdoa 2 809 615 590,5 rublos — 2,81 mil milhões — da dívida da região de Belgorod à Federação Russa por empréstimos orçamentais.
O despacho não diz para que serve o dinheiro. Disse-o o primeiro-ministro, dois dias antes: ajuda aos participantes da operação militar especial e aos seus próximos.
É a primeira vez que as duas metades dessa frase — um despacho de perdão assinado e pagamentos de guerra como destino declarado — estão lado a lado sobre uma região com nome e uma soma precisa ao copeque.
O que diz o despacho
Perdoa-se a dívida formada a 1 de março de 2024, com três exclusões: os empréstimos concedidos para projetos de infraestrutura, os empréstimos para repor o saldo da conta orçamental única da região e os empréstimos orçamentais com origem nos fundos temporariamente livres da conta única federal — estes últimos, precisa o próprio despacho, concedidos por até 15 anos a 3 por cento ao ano com direito a amortização antecipada. O ponto 2 encarrega o ministério das Finanças de executar o perdão. É todo o documento.
A soma não é discricionária. A fórmula operativa prende-a a dinheiro que a região já moveu:
«…perdoar a dívida da região de Belgorod à Federação Russa, formada a 1 de março de 2024, por empréstimos orçamentais… no volume dos fundos efetivamente dirigidos pelos sujeitos da Federação Russa, libertados em resultado do perdão da dívida por empréstimos orçamentais… no volume de 2 809 615 590,5 rublos.»
O perdão segue a despesa, e não o contrário: por esta fórmula, a federação cancela exatamente tanta dívida quanta a região efetivamente dirigiu aos fins permitidos. Quais foram esses fins no caso de Belgorod, o despacho não diz. O plural — «os sujeitos da Federação Russa» — é a fórmula da lei que ele cita, não uma alusão a outras regiões.
O destino existe apenas nas palavras do primeiro-ministro
Ao abrir a reunião com os seus vice-primeiros-ministros a 5 de outubro, Mishustin descreveu o mecanismo no seu vocabulário padrão: as regiões podem reduzir em dois terços a dívida ao orçamento federal e pôr o dinheiro em estradas e transportes públicos, reparação de habitação e redes comunais, modernização das localidades-chave e das empresas. Depois veio a frase que sai do menu:
«A região de Belgorod também fará uso deste mecanismo de redução da dívida. Adicionalmente dirigiremos quase 3 mil milhões de rublos às necessidades chave deste sujeito — a ajuda aos participantes da operação militar especial e aos seus próximos.»
A ficha do despacho no sítio do governo, publicada a 7 de outubro, regressa ao vocabulário padrão: em 2026 o mecanismo já foi usado por «mais de 80%» das regiões russas, que renovaram transportes públicos, realojaram habitantes de casas degradadas, modernizaram infraestruturas comunais e apoiaram projetos de infraestrutura. A guerra não aparece na ficha. Nem no despacho. Uma frase, dita pelo primeiro-ministro a 5 de outubro, é o único lugar dos três documentos onde o dinheiro de Belgorod tem um destino — e é a guerra.
Repare-se nos tempos verbais. O primeiro-ministro anuncia uma afetação futura — «adicionalmente dirigiremos». A fórmula do despacho perdoa dívida no volume dos fundos «efetivamente dirigidos», uma construção sobre dinheiro que já se moveu. Os dois textos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo — um anúncio feito enquanto a papelada alcança a despesa —, mas nada do que lemos resolve a ordem dos acontecimentos, por isso deixamos ambos no registo.
A regra que torna isto legal
O despacho apoia-se nas partes 17–20 do artigo 15 da lei sobre as particularidades da execução dos orçamentos em 2026 — nomeada no despacho apenas pelo título, sem número nem data. Em junho, a lei federal n.º 195-FZ alterou esse regime, e a nota do departamento jurídico do Kremlin enuncia a cláusula chave sem rodeios: as regiões cuja capacidade fiscal calculada antes do nivelamento em 2026 não excedia 0,9 receberam o direito de dirigir os fundos libertados «ao asseguramento financeiro das despesas ligadas à condução da operação militar especial».
Se a região de Belgorod passa essa fasquia de 0,9, nenhum dos documentos que lemos o diz. Se não passa, a frase do primeiro-ministro assenta nalguma outra norma, e nós não a vimos.
É uma série em curso, não um caso isolado. Cobrimos o mecanismo quando o decreto n.º 1095 alargou a cláusula de guerra a toda a região até 0,9 em agosto; então o ministro das Finanças contava 518 mil milhões de rublos perdoados em 76 regiões. Ao apresentar o projeto de orçamento no Conselho da Federação a 5 de outubro, Siluanov atualizou a conta — dos 1,1 biliões de rublos do programa de perdão, quase 520 mil milhões já foram perdoados — e disse duas coisas que põem o despacho de Belgorod no seu contexto: que as regiões «usam ativamente esta fonte para financiar medidas de apoio às famílias dos militares», e que a partir de 2027 a possibilidade de perdoar contra despesas de guerra é alargada a todas as regiões, sem obrigação de dirigir o dinheiro à habitação e aos serviços comunais.
Porque é que um empréstimo perdoado paga uma guerra
Nada nesta construção faz desaparecer a obrigação — ela muda-se. Os livros da região perdem 2,81 mil milhões de rublos de dívida; a federação renuncia a um reembolso que lhe cabia. Os reembolsos de empréstimos orçamentais refluem para o orçamento federal entre as fontes de financiamento do seu défice; o que o lado federal perde é, pois, uma receita com que contava — o mesmo reflexo que descrevemos em agosto, quando o que se moveu foi o próprio calendário.
O que vale ao caso de Belgorod uma entrada própria é o destino que lhe vem agarrado. Um pagamento a um participante da guerra, feito por um orçamento regional e financiado por um empréstimo que a federação deixa de cobrar, não aparece em nenhuma linha de despesa federal. O custo é real; os livros federais registam-no apenas como dinheiro que nunca voltou.
O que isto significa para as séries que seguimos
O défice dos orçamentos regionais da Rússia está em 1,509 biliões de rublos no ano móvel — 31 em 100 face ao excedente de 2021, de 0,661 biliões, e a uma linha de alerta registada num défice de 2,5 biliões. Um perdão não move essa leitura: como explica o nosso guia, o saldo é um fluxo de receitas e despesas, e uma dívida cancelada não é nem uma coisa nem outra. O défice orçamental da Rússia corre a 3,3% do PIB em doze meses — 65 face ao excedente de 2021, de 0,34% do PIB, e a uma linha de alerta nos 10%. O despacho de hoje também não move nada aí — uma região e 2,81 mil milhões de rublos contra um défice móvel de 7,5 biliões. O que ele documenta é o canal, elo a elo: como a Rússia financia a guerra através de orçamentos que não são o da defesa.
O índice de solidez está em 46,4 em 100, na zona de stress. A execução desta manhã não moveu nenhuma leitura.
O que não sabemos
Que lei cita o despacho. A lei das particularidades da execução orçamental de 2026 é nomeada apenas pelo título; o despacho não traz número nem data, e as bases jurídicas que o resolveriam estão inacessíveis a partir deste ambiente.
Se Belgorod cumpre a condição. A condição de capacidade fiscal de 0,9 da lei de junho é a única permissão de despesa de guerra que vimos; nenhum documento lido diz que a região de Belgorod a cumpre.
A quota. A dívida total de Belgorod por empréstimos orçamentais não está publicada em nenhum destes documentos; que fração dela representam os 2,81 mil milhões — e quanto valem «dois terços», o rácio-montra do próprio mecanismo, para esta região — não se consegue calcular a partir deles.
O total corrente. «Mais de 80% das regiões» vem sem lista e sem soma de 2026; os quase 520 mil milhões do ministro são um total do programa desde o início, não um número do ano.
O texto oficial. À hora desta sessão, o despacho não apareceu no portal oficial de publicação; o único texto em circulação é o PDF no servidor de ficheiros do governo, e foi esse que lemos.